“Joyce, você foi contratada para cozinhar para a minha família, e não para você. Por favor, traga marmita e um par de talheres e, se possível, coma antes de nós na mesa da cozinha; não é por nada; só para a gente manter a ordem da casa.”

Essas foram as palavras que a música Joyce Fernandes, conhecida como Preta-Rara, escutou de uma patroa quando trabalhava como empregada doméstica.

Anos depois, ela resolveu compartilhar a memória nas redes sociais. Com a hashtag #euempregadadoméstica, seu texto atingiu milhares de pessoas. No mesmo dia, recebeu outros relatos de problemas semelhantes.

Preta-Rara com o Guia de Direitos das Empregadas Domésticas

Preta-Rara com o Guia de Direitos das Empregadas Domésticas

Passado versus presente

Mas havia uma diferença importante. O relato pessoal de Preta-Rara estava no passado e ela recebia denúncias de problemas recentes.

“Brasil tem o maior número de domésticas do mundo: 5,9 milhões de mulheres”

Joyce Fernandes imaginava que as empregadas domésticas estavam com melhores condições de trabalho após a conquista dos direitos trabalhistas. Mas estava enganada.

Ela passou noites em claro lendo os relatos e decidiu criar a página Eu Empregada Doméstica – um canal de denúncia e desabafo de mal tratos e ataques aos direitos trabalhistas que as domésticas sofrem em todo Brasil.

Circuito LABxS - Lançamento do Guia de Direitos das Empregadas Domésticas

Nossa voz ecoa

A postagem da Preta-Rara ecoou e reverberou. A página recebeu milhares de relatos de maus-tratos ao redor do país.

“Eu fico muito feliz que a página tomou. Não foi algo programado, surgiu em um momento de ócio criativo. Agora, estamos ocupando e conhecendo várias mulheres. É importante que minhas provocações saiam da página”, conta Joyce Fernandes.

 

“Até 2015, ano da regulação do trabalho, 70% das empregadas domésticas não tinham carteira assinada”

 

Ela tem a consciência que não são todas as empregadas domésticas que conseguem acompanhar o que acontece na internet. “Vai continuar na rede, mas também vai para o mundo real. Para a conversa e ouvir. Na verdade, tudo surgiu no ato de ouvir. Não estamos interpretando ou contando histórias. São relatos em primeira pessoa”, conta.

A meta agora é reunir os relatos em um livro e também gravar um curta-metragem com algumas histórias relatadas na página.

O grupo de teatro Mulheres Pretas também vai montar um espetáculo baseado nos depoimentos.

“Na região metropolitana de São Paulo, 96,4% dos serviços domésticos são realizados por mulheres”

 

Sobre o guia

Sobre o guia

O Guia dos Direitos das Empregadas Domésticas foi lançado no dia 2/4, no SindiLimpeza, em Cubatão, elaborado pelo Coletivo ComunaDeusa e o Observatória dos Direitos e Cidadania da Mulher.

A atividade foi uma das contempladas pelo Circuito LABxS (Lab Santista) e, além da distribuição do guia, contou com uma serie de atrações: oficina de turbantes, oficina de cuidados bucais com produtos naturais, contação de historias com fantoches, discotecagem, apresentação de maracatu e pocket-show da cantora Preta-Rara.