No início de uma manhã de segunda-feira de maio, cerca de 15 pessoas estão dispersas pelo pátio de concreto dos fundos do LabxS. Cada uma delas pega um ou dois balões, num pequeno saco plástico distribuído pelos três integrantes do coletivo Etinerâncias, e começa a encher e espalhar pelo pátio. As pessoas, então, são convidadas a estourar os balões dos outros; quem ficar com os seus balões intactos é o vencedor da atividade, a primeira da imersão da Colaboradora. Todos poderiam vencer o jogo se assim decidissem; era só combinar que ninguém saíria do lugar nem estouraria os balões dos outros. Seria uma vitória coletiva, de um arranjo colaborativo em prol da imobilidade do corpo e da mente.

Mas alguns minutos depois, restam poucos balões. Correrias, risadas, movimentos rápidos de corpos ágeis já acordado, outros lentos tomados pela preguiça do  início da manhã, ou pela súbita ação sem muita justificativa. Uma mulher branca de calça jeans, tênis e camiseta preto, cabelos longos partidos – de um lado, comprido até quase o ombro, do outro, cortado curto rente à cabeça – é a mais rápida a estourar os balões das pessoas restantes. Ela sorri e comemora a vitória; diz que sempre brincou com os balões na infância e adora competir neste tipo de jogo. Seu nome é Aline Benedito (ou Fixxa, como é conhecida), nasceu e passou a infância e parte da adolescência em Tambaú, pequena cidade do nordeste paulista. É artista urbana, arte-educadora e produtora cultural, uma das cinco pessoas convidadas a participar da Colaboradora; os outros nove vieram pela chamada pública.

Fixxa Veio pra Santos há 16 anos, quando casou com Vlaidner Sibrão, conhecido como Colante, professor e artista gráfico de Santos. Foi com ele que o interesse pela arte de rua cresceu. “Quando estávamos arrumando a casa, me deparei com um monte de estêncil e perguntei o que era aquilo. Fiquei muito curiosa e perguntei se poderíamos sair para fazer na rua. Ele disse ‘claro’. Então paramos de arrumar as coisas e saímos”, recorda Fixxa, em entrevista à Lucas Krempel do jornal A Tribuna em maio de 2016. “Quando ele começou a imprimir o desenho na parede, eu comecei a chorar. Foi amor à primeira vista. Comecei a ajudar ele em seus trabalhos”, completa. “Mas daí interferia muito nas artes dele, nosso traço é bem diferente. Um tempo depois, quando a gente tava voltando de um rolê, ele falou: ‘Você tá pronta, vai fazer a sua arte”. No pátio do LabxS, no intervalo da imersão de inauguração da Colaboradora, ela se emociona ao contar desse início pra mim. “Com o grafite você muda o lugar. As pessoas começam a cuidar, e você recebe tanto amor… Eu disse: quero fazer isso pro resto da minha vida”.

Foi por volta de 2005 que Aline começou a mostrar seus próprios desenhos pelas ruas da Baixada Santista. É uma das mulheres pioneiras na arte urbana da região, e atualmente uma das poucas em atividade, ao lado de Drill – que cita quando perguntada por outra artista que atua como ela em Santos.  “O meu objetivo com a arte é propor uma reflexão sobre nossa política, sociedade e protagonismo feminino. Entendo a arte como uma maneira de desconstruir preconceitos”, afirma a tambauense, que participa de coletivos, como Efêmeras, Graffiti Mulher Cultura de Rua e OGS (Organização Grafite Santos), além do programa virtual TVColante, feito em parceria com o marido, e colaborar em diversos outros projetos como convidada – entre eles quatro da primeira chamada do Circuito LabxS, projeto inaugural do laboratório na Baixada Santista. “‘Ah que legal, você de novo por aqui?’ Acho que tanto me ver por aqui nesses projetos ajudou o pessoal do Procomum a me convidarem pro projeto”, conta a artista, entre sorrisos de quem sabe brincar e rir de si mesmo.

Fixxa anda muito pela Baixada, seja a pé ou de bicicleta. Ela diz que costuma ler as paredes da cidade enquanto anda, com o olhar atento para observar as pessoas e as construções ao redor do seu caminho. Quando quer pintar em uma região, normalmente vai de bicicleta, para no bar mais próximo, toma uma cerveja, observa mais, e só então aborda algumas pessoas, normalmente mulheres. “Oi, tudo bem? Você sabe onde tem um muro na região para pintar?”. Às vezes a própria pessoa a leva para um muro, normalmente os mais degradados, e então começa o trabalho criativo de Fixxa para tornar aquele muro mais uma obra de seu trabalho. As palavras em variados tons, os retratos femininos com grandes olhos eclipsados e a combinação de sticker, estêncil, lambe-lambe e grafite se tornaram marcas da artista, que tem diversos trabalhos espalhados pela região, além de outras cidades brasileiras. Em São Vicente, é possível ver um pouco do seu trabalho na UniBR e nas Oficinas Culturais. Na Praia Grande e Guarujá, há muitos desenhos em diversas ruas. Santos conta com intervenções na Vila do Teatro, Terminal Rodoviário, Sesc e em algumas ruas dos bairros mais diversos – entre eles a Bacia do Mercado, no primeiro trabalho em parceria com Mid e Bruno Malagrino, também participantes da Colaboradora.

Tem também trabalhos nas ruas de São Paulo, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e Tambaú. Além disso, há stickers e posters seus na Itália, Portugal, Alemanha, Holanda, Japão, Espanha, Inglaterra e Argentina, esses enviados para artistas locais, que colaram nas ruas de suas cidades. Como arte-educadora, Fixxa atua ministrando oficinas brincantes de artes urbanas para crianças e adultos no SENAC, SESCs, Centro da Juventude da Zona Noroeste Escola Total, Oficinas Culturais de São Vicente, Cais Vila Mathias, entre outros diversos lugares na região. Vive de sua arte e, de certo modo, de brincadeiras que promove como jogos educativos para seus alunos. “Tenho tempo flexível, vivo com pouco, espero terminar bem um projeto para iniciar o outro”, diz ela quando perguntada sobre sua rotina diária, focada na busca entre equilíbrio do corpo e mente com atividades como bambolê, meditação, patins – além, é claro, de pintar, desenhar, escrever e, agora, também frequentar o LabxS junto à Colaboradora.

* Pedimos para cada integrante da Colaboradora trazer um objeto que fosse representativo para ser retratada. Fixxa trouxe um mini-spray e uma máscara de pintura