Texto por Rodrigo Savazoni, diretor do Instituto Procomum e coordenador do LABxS (Lab Santista)
Crédito da imagem: Arthur Omar – O Esplendor dos Contrários

A antropofagia (o canibalismo filosófico dos trópicos) é a contribuição mais original produzida pelo pensamento brasileiro. Trata-se de um conceito proposto por Oswald de Andrade, poeta e filósofo que viveu na primeira metade do século 20, na maior parte do tempo em São Paulo, e que integrou o chamado modernismo brasileiro. Oswald escreveu, em 1928, um manifesto fundamental, o Manifesto Antropófago, que deu regra e compasso para toda uma “tradição clandestina” que vem se desenvolvendo nas artes e na cultura brasileira e que enxerga a criação como um processo de reapropriação crítica daquilo que é produzido no centro do capitalismo a partir da diversidade cultural (das tecnologias?) de nosso próprio território.

Muito mais que um exercício retórico de exibicionismo, de uma exploração estática daquilo de “tradicional” que a cultura autóctone produz, a antropofagia é uma visão internacionalista, onde as identidades se chocam e se reconstroem permanentemente, gerando formas híbridas (isso tudo muito antes de o digital tornar o remix popular). Por essa razão, segue sendo um pensamento atual e seduz artistas e pensadores de várias gerações, dos tropicalistas Caetano Veloso, Tom Zé e Gilberto Gil aos rappers como Criolo e Emicida, de Hélio Oiticica a Eduardo Vieiros de Castro.

Uma das principais expressões do pensamento e da atitude antropofágicos – em sua forma atualizada – é conduzida pela midiartista e pesquisadora Giselle Beiguelman, professora da Universidade de São Paulo, que cunhou o conceito de tecnofagia (o encontro entre a cultura digital e a antropofagia). Diz Beiguelman, em um texto para um catálogo, que a tecnofagia põe “ênfase nos processo de combinação entre a tradição e a inovação, os arranjos inusitados entre saberes imemoriais de última geração e a revalidação das noções de high e low tech. Em uma frase, tecnofagia é o encontro entre a ciência de ponta e a ciência de garagem”.

Há alguns anos, tive o prazer de me somar ao grupo de artistas, ativistas e pensadores que vem desenvolvendo o conceito de laboratórios cidadãos na iberoamérica. Nesse esforço, tenho sempre buscado evocar a necessidade de que esses novos espaços de criação – protagonizados pela cidadania ativa – sejam promotores dessa visão antropofágica, por entender que a partir dela podemos liberar forças que foram aprisionadas e que são essenciais para a construção de um mundo colaborativo e horizontal. Principalmente por ampliar e confrontar a visão hegemônica de tecnologia, incorporando nesse processo os saberes tradicionais e a chamada baixa tecnologia.

Mas o que são os laboratórios cidadãos? Um caminho para chegarmos à resposta dessa pergunta seria decompor a expressão. Comecemos por laboratório. Numa abordagem hegemônica, o laboratório seria o lugar onde se produz a ciência, que, por sua vez, seria uma prática social distinta de todas as outras de nossa sociedade por sua racionalidade suprema (o método científico). Nessa abordagem, o laboratório é o espaço per se de produção do conhecimento, com a finalidade de transformar ideias em produtos, soluções, respostas para orientarem a ação humana. Já desde o fim dos anos 1970, porém, temos visto a desconstrução da ideia de que o laboratório é o epicentro da produção de verdades inquestionáveis. Hoje sabemos que tanto o enunciado científico ‘verdadeiro’ quanto o ‘falso’ assumem tais atributos não por suas qualidades internas distinguidas pelo ‘bom’ ou ‘mau’ uso do método científico, mas em função de um processo social de convencimento que possibilitou que eles fossem reconhecidos enquanto tais.” Assim, uma mesma “verdade”, com base no mesmo método, só será considerada verdade se seguir o “processo social de convencimento” que o sistema impõe. A solução científica ou inovação que um jovem, em sua garagem, descobre, mesmo que seja com base em métodos científicos, pode não ganhar “reconhecimento” por não fazer parte dos circuitos científicos hegemônicos. Se entendemos isso, compreendemos a importância do laboratório como ambiente/percurso para a “validação” do conhecimento como científico.

Passemos agora ao conceito de cidadão. A bibliografia e a elaboração sobre essa temática são gigantescas, por isso recorrerei a uma sentença simples: o cidadão é o ser em exercício ou na reivindicação de seus direitos (humanos, sociais, culturais, ambientais…). Assim, o cidadão, aqui, é usado como adjetivo para qualificar o laboratório como ambiente destinado à cidadania, que é uma das dimensões que todo ser humano carrega consigo, aquela que diz respeito à sua existência como sujeito de direitos em uma determinada sociedade.

O laboratório cidadão, portanto, emerge como projeto onde a cidadania pode se reunir entre si para gerar conhecimentos úteis à humanidade, com o adicional de formatar um novo “processo social de convencimento” que possa fazer da inovação cidadã um discurso tão potente quanto aquele que os laboratórios privados ou universitários produzem para a sociedade. O agente principal do laboratório cidadão não é o cientista (com C maiúscula), mas todos nós que queremos colocar nossa criatividade a serviço da produção de soluções para os problemas sociais contemporâneos (sem distinção entre profissionais ou amadores).

Outro aspecto importante de comentar quando falamos de laboratórios cidadãos diz respeito à nossa visão de tecnologia. No nosso entender, esse é o conceito central a ser disputado, se entendermos um laboratório como como rede destinada ao “faça você mesmo”. Sendo assim, um laboratório cidadão só pode trabalhar com tecnologias abertas, livres e reapropriáveis, que compartilhem seus códigos e metodologias, permitindo assim reapropriação, reuso, ressignificação. Deve ser um ambiente (um espaço, um processo, um encontro) que estimule a criatividade que cada um de nós carrega consigo e não impeça a propagação das ideias e soluções produzidas.

Em seu livro Nowtopia, Chris Carlsson chama esse cidadão que busca produzir alternativas de “fuçador” – hackers, permacultores, artesãos, cicloativistas, desenvolvedores, artistas, entre outros – e diz que são eles os sujeitos de um fazer científico de outra matriz e com potencialmente outros resultados (essencialmente sem fins de lucro).

“Esse caminho questiona os rumos da ciência e da tecnologia a partir de baixo. Em vez de aguardar passivamente os resultados de laboratórios de empresas e universidades, que podem ser realmente úteis (o que só acontece por acaso, pois não há qualquer mecanismo social para definir ou orientar pesquisas ‘úteis’), os protagonistas de uma tecnocultura autônoma estão inventando tecnologias práticas, e desenvolvendo e compartilhando habilidades cotidianas”.

A criação dessas tecnologias práticas, que misturam conhecimentos indígenas, quilombolas, de permacultura, com as invenções mais avançadas que especialistas em eletroeletrônica, linguagem de programação ou robótica, é um processo antropofágico por excelência.

Estamos falando, portanto, de um ritual contemporâneo que caracteriza esse novo ambiente dos laboratórios cidadãos que vem surgindo em vários países. A antropofagia oswaldiana defendia, quase um século atrás, que as tecnologias poderiam nos redimir e reverter o ciclo predatório do processo civilizatório. Que poderíamos conviver com o patrimônio ambiental de forma distinta e qualificada, nos tornando, ao fim dessa jornada, bárbaros tecnizados, capazes de absorver dialeticamente aquilo que os indígenas e os cientistas nos ensinam.

Esse segue sendo, sem dúvida, o nosso principal desafio contemporâneo.