O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro espalhou o bordão: “aqui no Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é”. E em uma entrevista, completou: “e nós sabemos quem não é!”. Viveiros se referia àqueles que desrespeitam continuamente os direitos constitucionais dos povos originários, ao não reconhecerem seus costumes, crenças, idioma e estilo de vida.

Infelizmente, hoje, ser índio no Brasil é ter que provar aos outros sua condição de índio, sob o risco de ser chamado de vagabundo e questionado por usar tecnologias “não indígenas”, como o celular. É ter sua própria história saqueada. E ser Guarani Mbya na Aldeia Tekoa Paranapuã, em São Vicente, é ser proibido de plantar no solo em que se vive, não ter acesso aos direitos básicos e ser acusado de crime ambiental.

Mas ser índio no Brasil – e, ser Gurani Mbya em São Vicente – também é resistência. Isso porque a aldeia é um território ocupado desde 2004 e está localizada dentro de um parque estadual de preservação ambiental. Um grupo de 60 Guaranis Mbya e Ñandeva formou a aldeia após as encenações anuais da fundação de São Vicente.

Ronildo Amahttps://www.facebook.com/events/1490866490933137/ndios, atual cacique da Aldeia Tekoa Paranapuã

No mesmo ano, o governo do Estado de São Paulo entrou com uma ação para reintegração de posse, que nunca foi concretizada, mas dificulta a realização de projetos e impede os guaranis de promoverem as atividades mais básicas que seus costumes e tradições pedem, como plantar.

Um encontro para a troca

A proximidade com a cidade gera benefícios e prejuízos para os indígenas da Aldeia Tekoa Paranapuã. Do contato com o homem da cidade, não indígena, surge a principal fonte de renda da aldeia, que é a venda de artesanato. Uma proximidade que também possibilita, por vezes, encontros criativos, como o que ocorreu nos dias 8 e 4/4, com a realização do 10º Encontro da Permaperifa, uma rede de ativistas ambientais e permacultores da periferia da grande São Paulo, litoral e região metropolitana.

A atividade fez parte do Circuito LABxS (Lab Santista) e teve como objetivo construir um banheiro seco e uma horta comunitária para a aldeia. Duas demandas das famílias que vivem no local.

“Hoje é um dia muito especial. Estamos compartilhando a técnica da permacultura da fossa seca e aprendendo mais sobre a construção indígena do pau a pique”, explica o estudante Vinicius Duarte, do Coletivo Plantasonhos, um dos idealizadores do encontro.

Em decisão coletiva, o grupo optou por usar o conhecimento guarani para revestir as paredes do banheiro com pau a pique.

Vinicius Duarte, um dos idealizadores do projeto

“Também estamos dando início à horta comunitária. Uma luta de mais de 13 anos. Desde quando os guaranis reocuparam esse local”, conta Vinicius.

Por estar em um parque estadual, eles não tinham permissão para plantar. A atividade era entendida como crime ambiental e desmatamento pela administração do parque.

“Aprendi nos pequenos detalhes. A cultura é dinâmica e tudo é um processo. Vivemos um contexto que não é acolhedor para os indígenas no Brasil. Temos mais de 300 etnias e 200 línguas, mas somente certo padrão é reconhecido. Temos que reconhecer, escutar e dar a devida importância aos guaranis. É uma historia de luta que tem muito a nos ensinar. O que aprendo nos detalhes é um pouco dessa resistência”.

Para ele, a troca não esta somente na técnica, mas no processo.

“Acho que as pessoas deveriam vir aqui. Existe muito medo e preconceito que desfavorece o encontro. Precisamos entender que existem diferentes modos de viver.

Ronildo Amandios, 37, é o novo cacique da aldeia. “ Já faz um tempo que sou liderança aqui, mas ser cacique é muito difícil. Aumenta a responsabilidade. Estou cuidando dos tramites legais para conseguirmos a demarcação”.

A demarcação da terra ainda deve demorar, mas ele anuncia que este ano está para conseguir uma vitória. “Estamos terminando os primeiros estudos para o reconhecimento da nossa terra. Passo inicial para o pedido de demarcação”, explica.

Sobre o mutirão para o banheiro seco e horta comunitária, Ronildo lembra que “estamos aí para ajudar e ser ajudados”. O cacique comemora o encontro: “Estamos felizes de estar compartilhando esse trabalho junto com eles. Agradeço muito. A horta vai ajudar muito porque vamos plantar hortaliças. Nosso intuito principal é consumir, mas dependendo do rendimento podemos ate vender as sobras e beneficiar a aldeia”.

O banheiro seco ajuda não somente os moradores da aldeia, mas também os visitantes. Todo ano, em abril, eles organizam os jogos indígenas na Tekoa Paranapuã. Essa foi uma das estratégias que a aldeia encontrou para driblar a burocracia do parque estadual. Assim, eles podem receber visitantes e mostrar um pouco de sua cultura e costumes.

Somos resistência

Mariano Tupã Mirin, uma das lideranças da aldeia, lembra que a construção da horta é muito importante para as tradições, especialmente para o plantio do milho guarani. “ O objetivo é ter essa horta como meio de sobrevivência. Está sendo ótimo para nós”.

Mariano

Ele também ressalta que a troca de conhecimentos é muito proveitosa. “ Vamos aprendendo com eles e eles com a nossa comunidade. A gente tem uma boa visão sobre o manejo da terra e plantio e eles tem técnicas que não conhecemos. A gente vai trocando essas técnicas juntos, trabalhando, e isso é muito legal para aldeia”, analisa. “Essa é uma luta para para a gente sobreviver e manter a comunidade em pé. Uma luta que não é de agora, é de muitos anos. E a gente conquista os ganhos no cotidiano. Mostrando que somos verdadeiros e que somos resistência”.