O distrito de Vicente de Carvalho no Guarujá é o local de origem da proponente desse projeto. Desde muito pequena observa a musicalidade peculiar desse distrito considerado um pedaço do Nordeste em São Paulo. Seja nas mercearias conhecidas como Casas do Norte (onde se encontra os mais variados produtos como carne de sol, cabaças e gamelas) ou mesmo na tradicional Feira do Rolo a presença do repentista, do sanfoneiro e de outros versadores e cantadores é lugar comum. Entretanto a voz feminina como protagonista dessas brincadeiras não é tão facilmente representada.

Além dessa musicalidade que sobrevive no cotidiano de luta nos comércios, portos, e quintais Vicente de Carvalho abriga parte de um tesouro da história do povo negro. A passagem do baiano José Bispo dos Santos ou Bobó de Iansã (Salvador, 1914 – São Paulo, 1993)transforma o distrito de Guarujá em polo cultural, sobretudo da população negra da Baixada Santista e berço do Candomblé no Estado de São Paulo é a passagem do. Pai Bobó foi fundador do mais antigo terreiro de Candomblé do estado de São Paulo. No distrito de Vicente de Carvalho colocou seu axé de 1957 a 1993 quando veio a falecer.

A história do Candomblé na cidade do Guarujá traça uma trilha que chega a casas pioneiras da prática no Brasil como a Casa de Oxumarê. Parte da vasta riqueza da religião negra será homenageada por meio de exposição artística com fotografias, pinturas, mapas, áudios, informativos etc.) De origem sergipana e baiana Marília Fernandes sempre sentiu a pulsação nordestina em sua própria casa e sente a necessidade de refazer os quebra-cabeças da genealogia dessa mulher/ negra /neta de nordestino/neta de praticante de candomblé/neta de brincante de reisado/ bisneta de trabalhadores rurais.

Esse indivíduo na cidade está carente de corpo comungado e voz. O corpo que vai à feira, que faz a roda é um corpo colocado, um corpo em contato. Colocar o corpo em sua totalidade de possibilidades, tônus, cores, pesos na cidade carente de contato é um corpo político. O corpo feminino que vai à feira pra brincar desafia o pilar nefasto onde colocaram a mulher. Essa ótica machista de enxergar nas mulheres corpos públicos e de apreciação coletiva vai dos fiu-fius aos criminosos estupros. A mulher não está segura na rua.

A mulher que brinca, toca e dança na rua é um ato político. A mulher negra que toca, brinca e dança em solo carente de religares é um ato político.

Toda essa brincadeira leva a carga dos reisados, cavalos-marinhos, cocos de roda, sambas de praia, xirês de Candomblé…vividos pelo corpo ou pela ancestralidade.

O grupo se concentrará no terminal de barcas de Vicente de Carvalho panfletando e tocando instrumentos.

No panfleto, um convite à brincadeira. Ficaremos ali por cerca de trinta minutos. Teremos material pré cortado para possíveis interessados fazerem bandeiras, máscaras e outros adereços. Sairemos em cortejo subindo a passarela de pedestres. Articularemos com os órgãos pertinentes a colocação prévia do material artístico em homenagem à história negra do Guarujá nos postes e muros. Mais quarenta minutos de canto, dança e toque em direção ao alto da passarela.


Participantes:

Cris Santana
Janaina Celestino
Juliana do Espírito Santo
Lelê Lótus
Ligia Lie
Marília Fernandes
Paula Mata
Simone Santos
Thaís Reis
Vanessa Rego
Direção Geral: Marília Fernandes
Participação: Fixxa

 


Área de atuação:
Música e Dança