Bruno Malagrino nasceu em Cambuci, região central de São Paulo. Viveu 22 dos seus 31 anos num bairro que foi ponto de passagem entre a ocupação original de São Paulo, em torno do Pátio do Colégio e a praça da Sé, e o chamado Caminho do Mar, estrada que levava à Baixada Santista. Por sua localização estratégica, foi uma região celeira de muitas indústrias do final do século XIX até meados do século XX; não por acaso, também foi morada e palco de muitos operários e manifestações sindicalistas, sendo chamado por muitos de berço do anarquismo brasileiro. Por volta dos anos 1970, boa parte das indústrias se mudaram para a região metropolitana de São Paulo, o que deixou galpões e fábricas vazias durante anos. Foi a partir destes espaços vazios que o bairro se tornou novamente celeiro, mas desta vez de uma arte: o grafite.

Bruno cresceu a caminhar e olhar os muros grafitados da região. Viu os primeiros trabalhos dos irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, conhecido por OsGemeos – uma das principais referências brasileiras no grafite mundial – nas ruas do Cambuci. Para ele, foi mais fácil do que para outras pessoas se identificar com a arte do grafite e começar a desenhar. Já na escola começou a rabiscar cadernos e perceber que gostava das artes mais ligadas ao desenho. Mais velho, foi fazer faculdade de Comunicação (Rádio e TV) na Universidade Anhembi-Morumbi. Com 22 anos, deixou sua Cambuci natal para viver em São João da Boa Vista, pequena cidade do interior de São Paulo quase na divisa com Minas Gerais. Lá começou a pintar e desenhar mais e a tentar descobrir uma linha narrativa própria, traços e elementos visuais que identificassem o seu trabalho enquanto artista gráfico.

A descoberta de uma identidade, e a força que seu trabalho poderia ter, se deu mesmo a partir de uma viagem ao México, em 2017. Lá, ele conta que conheceu gravuristas e muralistas com linguagens e técnicas incríveis que, sem cerimônias, abriram seus atelier para ele trabalhar junto. Esteve durante dois meses em Zacatecas, região centro-norte do México, trabalhando, ao lado de sua namorada, a também fotógrafa Cláudia Alvarez, como voluntário em três gráficas tradicionais do local. Passaram um mês em Culiacán, capital do estado de Sinaloa, no Golfo da Califórnia, onde com outros 20 artistas fizeram 40 murais em um bairro do centro antigo da cidade. Também no México, passaram pelo estado de Oaxaca, no sul do país, trocando trabalho por hospedagem, comida e o que mais fosse possível. Descobriram, nessa última jornada, que é sim possível viajar com luxo e sem dinheiro; de acampar na praia a dormir num hotel cinco estrelas com banheira gigante, passaram por várias moradas e 10 cidades do Estado Mexicano somente na troca.

Desde abril de 2018, Bruno está de volta ao Brasil. Mora, agora, em São Vicente, mesmo lugar que ia passar férias na praia, em sua infância. Percebe que hoje tanto São Vicente quanto Santos estão mais abandonadas do que quando frequentava anos atrás, e com isso sua inspiração aumenta; sente-se como se estivesse reconstruindo muros que já estavam erguidos, ou mesmo derrubando os existentes e construindo outros. A bacia do mercado é, para ele, representação máxima dessa região que outrora foi ativa e hoje se encontra descuidada pelo poder público. Foi lá, no entorno do LabxS, que fez seu primeiro grafite depois que voltou do México, junto com Fixxa e Mid, dois artistas visuais também participantes da Colaboradora.

Crédito foto: Ornella Rodrigues

Bruno se identifica enquanto um nômade digital e, como diretor de arte, realiza trabalhos comerciais diversos, de embalagens de produtos a ilustrações para marcas. Como nunca teve rotina definida, sempre foi freelancer, o que permite fazer seu horário de trabalho: desde que voltou do México, tira o dia para fazer coisas úteis e inúteis, como “rolê de bike sem objetivo claro” nas palavras de Bruno. À noite trabalha, em especial em desenhos – lápis, aquarela, linogravura, digital. Sua expectativa com a Colaboradora é a de usar do tempo e do espaço para continuar evoluindo em seu trabalho, além de fazer novas parcerias e “deixar que as coisas fluam”.