Por Lia Rangel

Entre maio e dezembro de 2017, Bianca Santana e eu, Lia Rangel, conduzimos o ciclo “Mulheres (no plural) e o Comum”, como parte da programação das atividade que integraram o Círculos do Comum, processo promovido pelo Instituto Procomum para dar início ao Lab Santista, ainda sem um espaço físico definido.

Durante os 5 encontros, quatro deles realizados em parceria com a Casa Fórum, experimentamos uma série de vivências e possibilidades para desenvolver uma metodologia que promovesse o cuidado, a ampliação de repertório e a escuta. Experimentamos formatos que mesclaram práticas de escuta características dos círculos de mulheres, com leitura de histórias, poesia, partilha de conceitos teóricos e pensamentos ligados à organização da sociedade a partir de uma leitura feminista, considerando as desigualdades de gênero, raça e classe que caractarizam nossa sociedade.

Promovemos a partilha de reflexões que buscaram subsidiar as mulheres participantes (e a nós mesmas) com referências e vivências para repensarmos coletivamente o modelo de organização ao qual estamos submetidas. Organização da vida. Do tempo. Dos nossos prazeres, desejos e saberes. Para nossa surpresa, os convites que eram sempre abertos, atraíram mais de 70 mulheres de diferentes origens, raça e idades. Podemos dizer que ao longo desta experiência demos início a um laboratório de práticas e construção de pensamento a partir de uma perspectiva feminista e feminina* de se colocar no mundo.

Cada encontro girou em torno de um tema. O primeiro abordou os conceitos e sensações sobre ser mulher. Depois trouxemos à tona a importância da vida em comunidade, debatendo o acúmulo de funções e a centralidade do trabalho reprodutivo (cuidado, sexualidade e reprodução, trabalho doméstico) para a organização da nossa existência. Em seguida, trouxemos vivências para identificar como o prazer é fonte fundamental para promover potência criativa e vitalidade para as mulheres. No penúltimo encontro, questionamos a centralidade que é dada ao conhecimento formal, trazendo o valor dos conhecimentos ancestrais e outros saberes dados como menores pela ótica dominante, branca e patriatal. E por fim, realizamos, já na sede do LabxSantista, um encontro de cocriação para sonhar juntas possibilidades de construir caminhos para criar soluções rumo a defesa do bem-viver.

* (feminista = pela defesa da igualdade de gênero no que se refere ao acesso aos direitos sociais, econômicos, políticos e culturais, da autonomia em relação ao nosso corpo e da defesa do prazer como fonte indispensável de potência para a criatividade e vitalidade da mulher / feminina = pela reconhecimento e valorização das características vinculadas ao lado mais subjetivo da existência, mais yin, como a intuição, a conexão com a natureza o com os ciclos naturais, com a espiritualidade, com o cuidado, com o silêncio, com a beleza).

Aprofundando o contexto

Por séculos, nossas vozes foram silenciadas, nossas memórias apagadas, nossa autonomia cerceada. A história que aprendemos na escola apresenta apenas uma versão dos fatos, aquela filtrada sob a ótica dos homens brancos e de elite, a história da praça pública, dos que venceram, dos que permaneceram no poder. Recentemente, como num despertar, percebemos o desejo de integralidade das mulheres (no plural) em poder escolher seus caminhos, em redescobrir suas histórias, o desejo de acessar as oportunidade – que não muito distante – eram exclusividades do universo masculino, mas sem termos de nos violentar para isso, reproduzindo o modelo agressivo e opressor que acostumamos achar ser único.

Importante ressaltar o quão recentes são as mudanças que vem transformando o lugar social da mulher na sociedade. Basta perguntar para nossas avós se elas puderam frequentar a escola, se elas puderam votar, se elas escolheram o próprio marido, se elas andavam sozinhas pelas ruas, se elas tiveram uma profissão que atendesse aos seus gostos e talentos, se elas experimentaram o gozo para constatar que estamos vivendo praticamente uma pré-história da conquista de direitos e igualdade de gênero. (se considerarmos que o domínio do homem sobre a mulher acontece no período Neolítico quando se descobre a participação da semente masculina no processo de geração de uma vida, estamos falando de milhares de anos de opressão). Apenas mais recentemente, a partir da década de 60, os movimentos feministas se fortaleceram e abriram espaços para inúmeras conquistas que tinham como norte a disputa pela igualdade de direitos (de voto, acesso à educação, à saúde, ao espaço profissional, etc). Avançamos um tanto. Um tantinho. Não à toa as mulheres são hoje arrimo de família, movimentam a economia, estão aí ganhando o mundo, protagonizando protestos, mas algo doi. Muito. Cansa. As disparidades seguem abismais. Ainda maiores quando consideramos as desigualdades de classe e gênero. Diferenças salariais, invisibilidade nos protagonismo, violência, lugar de fala ainda silenciado. Bem perto de cada uma de nós. Geralmente estes abismos se expressam na nossa sala de jantar. Por isso experimentar modelos, inventar caminhos a partir dessa perspectiva é fundamental.

Como aprendemos com Silvia Federice durante nossos encontros, para estarmos nesse mundo, nos isolamos das nossas comunidades. Adotamos o modelo unifamiliar de organização da vida. E caímos numa solidão existencial. Cada uma em sua casa, reproduzindo. Nem sabemos o que. Nos afastamos de conhecimentos ancestrais que geravam autonomia. Nos armamos, da cabeça aos pés de conhecimentos racionais abrindo mão da intuição e da relação como nossa espiritualidade como elementos guias. Nos medicalizamos. Terceirizamos o conhecimento e cuidado de nossos corpos aos especialistas e ao mercado. Além disso, nos submetemos a um injusto acúmulo de funções por conta de uma distorção resultado da organização da sociedade a partir dos domínios masculinos que tornaram invisíveis as tarefas que viabilizam nossa existência.

Comer, dormir, cuidar, se reproduzir, habitar um ambiente limpo, agradável. Gerar. Antes de trabalhar, de produzir arte, fazer ciência, articular uma revolução, escrever um livro, dançar um funk, jogar uma partida de futebol, ou seja lá o que for, precisamos estar vivos. Ou seja. Precisamos comer, dormir, vestir, estarmos limpos, sermos cuidados. Precisamos parir. Parece óbvio, não? Mas não é. Essas tarefas são “oficialmente” chamadas de trabalho invisível. Ou seja, tudo o que está da porta para dentro de nossas casas, tudo o que está no domínio da energia do yin, do feminino, do cuidado, nem é considerado. Somos nós, mulheres, brancas, negras, indígenas, gordas, magras, cis ou trans, é que nos responsabilizamos por essas atribuições, nos desdobrando em jornadas duplas. Vandana Shiva diz que por isso, somos nós, mulheres que seguimos conectadas ao que importa e que talvez, por isso, juntas tenhamos mais chances de encontrar soluções para o colapso do planeta que pode já não ter mais volta.

Segundo ela, o modelo que caracteriza o mundo contemporâneo promove a separação do homem (ser humano) da vida. Por privilégios e interesses, o homem ganhou poder, mas esse poder veio por meio de separações. Separação da natureza, dele mesmo, da família e da comunidade. E a mulher contemporânea, se almejar ser reconhecida, tem de seguir o exemplo masculino. Para sermos mulheres de sucesso, a primeira coisa que fazemos é nos livrar dessas tarefas ditas menores e sem importância (invisíveis aos olhos de quem?). Terceirizamos os cuidados com a vida a outras mulheres, provavelmente negras, que perpetuam a cruel herança que a escravidão nos legou. Mulheres negras, em sua grande maioria, seguem servindo. Naturalizamos a figura da empregada doméstica como algo normal.

Por isso, durante as atividades realizadas debatemos quão central é repensar o que vem sendo chamado de trabalho reprodutivo (as tarefas ligadas aos cuidados, ao trabalho doméstico e à reprodução). Porque cuidar demanda tempo. E o tempo é um de nossos bens mais preciosos. Nós estamos ocupadas a cuidar de nós mesmas, dos nosso filhos, de nossos velhos e de todos os homens. E a produzir, produzir, produzir. Para quem? O cansaço que sentimos é coletivo.

Se coisas tão fundamentais para nossa existência no planeta foram legadas a invisibilidade é porque um complexo, potente e sedutor sistema de opressão foi criado. Ele tem nome. E se chama capitalismo. E anda de mãos dadas com o domínio patriarcal da nossa existência. Nos parece que essas escolhas estão no centro do colapso planetário ao qual estamos submetidos.

Das utopias à realidade

Por isso esse ciclo nasce do desejo de experimentar possibilidades para romper e subverter esta forma de pensar e estar no mundo. Não sabíamos muito bem como. Fomos experimentando, a cada encontro. Fomos encontrando ressonância. E convergências nos sentimentos entre as mulheres. Nos identificando a partir das semelhanças e nos ouvindo a partir das diferenças – principalmente de raça. Tivemos mulheres brancas e negras compartilhando a vida, para grande maioria, em circunstâncias de abertura e confiança inéditas. Senhoras de 70 anos, recebendo massagens de meninas de 18. Nos fortalecendo para encontrar uma portinha ou várias para seguir nessa caminhada de resistência e invenção de um novo modelo de vida a partir da possibilidade de vivenciarmos a experiência de criar um laboratório voltado para a promoção do bem-viver e da defesa, promoção e criação de comuns. E sairmos dessa solidão criando comunidades. Não sabíamos o que sairia disso tudo. E aqui estamos.

No último encontro, em novembro, depois de passear por muitas referências, por muitas histórias, por muitas partilhas, sonhamos juntas. Um monte de possibilidades a partir de algumas dessas constatações aqui:

A vida vem antes da produção. Não há comum sem comunidade. Nenhum processo é genuinamente democrático se construído sobre o sofrimento e a opressão do outro, em especial sobre as assimetrias produzidas pelas desigualdades de gênero, raça e classe. O prazer é fundamental para a promoção de processos criativos e inovadores. Não há separação entre homem e natureza. Somos parte da natureza. O conhecimento dos livros e das instituições nem sempre é o que importa. Os saberes que importam promovem autonomia em relação a como nos relacionamos com nossos corpos, com as outras pessoas, com o tempo, com o mundo que nos cerca. Precisamos olhar para a abundância. Precisamos ser generosas, conosco e com os outros. Precisamos nos cuidar. Precisamos de corpos conscientes. Precisamos contar nossas histórias. Precisamos de homens conscientes.

As possibilidades sonhadas a partir deste processo passam pelo desejo de construir um espaço permanente de troca que pode gerar atividades, conhecimento, articulação de redes e principalmente ser um promotor de cuidado compartilhado. E a conquista de um espaço físico para sediar o LabxSAntista também se abre como uma excelente oportunidade para fortalecer esse movimento. Não queremos separações. Queremos homens conscientes, abertos, dispostos a transformarem uma cultura secular de opressão. Queremos processos que não excluam ninguém.

Por isso, acreditamos que podemos contribuir para a criação de um laboratório a partir dos valores partilhados entre as mulheres. No lugar do punho cerrado, a mão estendida. Ao invés da opressão, a colaboração. No lugar do discurso inflamado, a escuta. Trocando a história única, pela multiplicidade de visões e percepções. No lugar da produção ininterrupta, a possibilidade da fruição. No lugar da valorização extrema da propriedade privada, a defesa do que é comum.

Sonho, utopia? Com certeza. Mas por que não?