Por Victor Sousa
Fotos por Rodrigo Ribeiro

Um objetivo antigo de um artista que vive com HIV. Um sonho antigo de um grupo de artistas e ativistas, unidos pela militância, afinidade, arte, performance, pensamento político e ideológico.

A vontade de levar e debater a Aids sobre o viés social e não moral.

De levar a discussão para além das consultas, das salas de terapia e das conversas de família.

Utilizar a arte e os corpos como ferramenta para aprofundar o debate sobre saúde pública, LGBTfobia, racismo e misoginia.

Arte e debate para contagiar as pessoas com informação.

Esse é o impulso da ação Corpos, HIV e espaço público – arte como ferramenta de informação, proposta por  Silvino, ator e cantor, e um grupo de artistas e ativistas da temática.

Silvino, ator e cantor, proponente da ação

A atividade fez parte do #CircuitoLABxS 2018 e aconteceu no domingo, 6/5, na região da Bacia do Mercado em Santos-SP.

Foram duas performances na Estação das Catraias (barcas que ligam o centro de Santos com o bairro Vicente de Carvalho, Guarujá-SP), uma roda de conversa e batalha Slam na sede do Lab Santista.

Uma debate social, para negativos e positivos

“Eu vejo a questão da HIV/Aids como um raio-x da sociedade. Se você quer entender a estrutura social na qual estamos inseridos, basta olhar quais corpos são direcionados pela infecção e a para a morte. Para quais corpos a saúde pública não é pensada”, reflete Silvino.

Para ele, ao fazer essa reflexão, o resultado do raio-x é o racismo LGBTfobia e misoginia institucional. “Debater a Aids em um viés social é pensar todas essas estruturas e o que revelam da sociedade. O que mata é o silêncio e o preconceito das pessoas negativas ao verem a Aids como uma pauta não relevante a todos”, disse Silvino.

As performances

A primeira performance da atividade foi Contagiar, de Kako Arancibia, na Estação das Catraias.

O artista posicionou duas cadeiras de praia na calçada, sentou-se em uma delas e convidava as pessoas para sentar e conversar sobre HIV/Aids.

Essa foi a primeira vez que Kako Arancibia realizou a performance longe de áreas centrais. Ao contrário de outras ocasiões, poucas pessoas se sentaram para conversar. Elas ficavam em pé e se aproximavam timidamente.

Contagiar", de Kako Arancibia

Contagiar”, de Kako Arancibia

A ideia do artista é criar um ambiente para debater ideias para além dos ambientes privados, para além do tabu, do preconceito e do moralismo.

“Quero mudanças. E coloco o meu corpo em exposição para esse tipo de mudança ocorra. Afinal, o medo corre com força e velocidade e precisamos colocar nossos corpos no campo de batalha. Se falam de luta contra Aids, quero fazer outro tipo de luta, outra transformação. Ela vai ser a longo prazo, mas vai acontecer”, conta o artista.

Já a performance “Cura”, de Micaela Cyrino, aconteceria a princípio na sede do Lab Santista. Ao caminhar pelas ruas do bairro e entender a complexidade e problemas do bairro, resolveu performá-la nas ruas.

Também foi a primeira vez que ela performou no centro de uma cidade, próxima à população que está em situação de rua e com intervenção direta dos transeuntes com o processo.

“Ao performar na rua, me surgiu a questão do corpo negro feminino. O quanto eu vivo em um corpo que é completamente vulnerável. E não é somente pela epidemia, mas também pelo machismo, pelo direito ao meu corpo e a fetichização do corpo negro. Me senti atravessada. E isso aconteceu porque eu sou um corpo negro feminino”, contou Micaela Cyrino.

"Cura", de Micaela Cyrino

“Cura”, de Micaela Cyrino

Por fim, também aconteceu uma roda de conversa sobre o tema, facilitada por Luiz Felipe,
do coletivo Loka de Efavirenz, e uma apresentação do Slam dos Andradas.

Para a pesquisadora e militante do coletivo Loka de Efevirenz, a atividade coloca em xeque a estrutura da sociedade e sua ideologia dominante que é racista, LGBTfóbica, classista e sexista. “Estamos criticando e discutindo processos de marginalização e vulnerabilidade social a partir da Aids, que revela como toda a estrutura do racismo funciona. De colocar as mulheres negras como as mais vulneráveis e invisibilizadas, de colocar a população LGBT como vetor do vírus e a juventude como responsável pela epidemia. Enquanto isso, o Estado tira o seu da reta”, disse Luiz Felipe.

Luiz Felipe, do coletivo Loka de Efavirenz

“Nosso corpo é marcado pela violência e diferenciação social. Já sentimos que as políticas não foram pensadas para nossos corpos e sim contra eles”, continua.

Para Luiz Felipe, a atividade também foi para além da critica e é transformadora porque está articulada em rede e em movimento, ocupando espaços públicos. Apesar dos avanços do conservadorismo, da perca de direitos,das mortes e genocídio, ele acredita que momentos como esse vão acontecer com mais frequência.

“Estamos aqui para falar aqui para falar que somos fortes demais. E somos muitos. E estamos a favor da liberdade e da vida. E não é possível se opor à vida”, concluí Luiz Felipe.