Em 2012, Diego Silva queria reformar o seu quarto, mas estava com pouco dinheiro. Desmontou um armário e utilizou a madeira para criar seu novo armário-balcão que dura até hoje e foi a primeira peça que criou.

Esse foi início do projeto Di Rua, que nasceu em 2015.

O artista plástico de São Vicente-SP busca madeiras pelas ruas da cidade para criar móveis, luminárias, caixas de som, cozinhas planejadas, bolsas e o que mais couber em sua criatividade.


“Sou autodidata, nunca fiz curso, sequer vi nada no YouTube, fui pensando e colocando a mão na massa, de maneira fácil e orgânica”, conta Diego Silva.

Desde então, o Di Rua só construiu objetos com madeira reutilizada: “Não se compra madeira por aqui”, conta. Segundo ele, seus projetos reaproveitaram mais de uma tonelada de madeira em 2017.

Di Rua no #Circuito2018

Na segunda edição do #CircuitoLABxS, Diego propôs a atividade Oficina Puff Di Rua na qual os moradores de rua são os protagonistas da produção e execução de uma oficina de construção de puffs com madeira reutilizada.

Em sua trajetória pelas ruas em busca de madeira, sempre cruzava e conversava com moradores de rua e criou vínculos afetivos e profissionais com eles.

A atividade aconteceu na casa do artista plástico, sua oficina-garagem no bairro Cidade Naútica em São Vicente-SP. O clima era festivo, comida feita em casa, portões abertos, amigos, amigos de amigos, vizinhos e interessados aprendendo técnicas básicas de trabalho em madeira pela manhã. Pela tarde, aconteceu uma oficina de criação de estojos com caixas de leite.

Abrindo o conhecimento
Mais do que abrir as portas de sua casa, ele abriu seus conhecimentos, ferramentas e saberes. Nesse momento sua casa tornou-se por algumas horas um bem comum para o bairro.

Um bem comum intangível porque ali estava a história de sua família. De sua mãe, ex-funcionária pública, sindicalista e militante da área da saúde e das bases eclesiásticas nos anos 70 – que recebia todos com largo sorrisos, histórias e conversas.

Das caixas de som construídas por ele mesmo ecoava a trilha sonora da oficina.

E da sua história pessoal e do seu conhecimento com madeira ecoou o conhecimento e o compartilhamento com o cuidado e o carinho de ensinar.

“É muito legal ensinar e a reutilização de madeira. Não é tão difícil como imaginam.  Com um pouco de direcionamento, técnica e carinho, fica fácil para todo mundo”, comentou.

“Essa foi a primeira vez, que fiz uma oficina coletiva. Senti muita alegria ao compartilhar, conexão, brincar, diversão, sustentabilidade e manutenção das vidas das pessoas aqui hoje”, comentou Diego Silva.

Da simplicidade e da generosidade do simples ato de abrir as portas de sua casa, sua história, trajetória e conhecimento, surge uma potência.

E alguns questionamentos ( ou sonhos).

O que aconteceria se abríssemos as portas das nossas casas – e histórias pessoais – por um dia para a comunidade? E se tirássemos um dia de nossas vidas para transmitir algum conhecimento que acumulamos no decorrer dos anos?

E se as oficinas, ateliês,  escolas, oferecessem dias de portas abertas para as comunidades?

Por fim, seria esse um híbrido ou um modelo de como tornar as bens privados e intelectuais em comuns, mesmo que por instantes?

A vontade que fica é de abrir as portas, das casas, das oficinas, do conhecimento e do compartilhamento.

Moradores de rua

Diego Silva explicou que a relação com s moradores de rua é sempre bem complexa. “Eles mesmo vieram pouco aqui hoje. Aparecem por algumas horas, me ajudam, mas não ficam muito. Mas não importa, porque temos empatia e trato entre nós no dia a dia”, comenta.

Quando questionado sobre um sonho para o Di Rua, Diego respondeu rapidamente. “Tiraria as pessoas da rua. Quero inclusão, acabar com preconceito e a madeira pode fazer isso de maneira conceitual. Meu maior sonho é tirar pelo menos uma pessoa da rua fazendo, seja com um curso de formação ou como funcionário, mas infelizmente não posso oferecer salário. Também preciso de mais preparo”, comenta.

Dagoberto, um dos moradores de rua que apareceu na atividade não podia conter a emoção. Ao aproximar-se de Diego seus olhos lacrimejavam. “Sou grato, porque ele me trata com muita dignidade, me oferece copo de água, frutas, toda vez que passo aqui. Me ajuda com trabalhos e me escuta, acho que ele é única pessoa que me escuta”, contou.

“Conheci ele há cinco anos e estava um sol muito forte. Eu não enxergava direito e ele me deu um óculos de presente quando descobriu”, conta.

Ao fim, Dagoberto comentou que gosta de escrever nas noites em que não consegue dormir, quando tem um papel e uma caneta. “Para o Diego, já escrevi três cartas de agradecimento. Considero ele um irmão. Mas ele não sabe, nunca mostrei para ele”, disse.