Por Leo Foletto
Fotos Victor Sousa

Aos 11 anos, Juliana assistiu uma peça na escola onde estudava, em Vicente de Carvalho, distrito de Guarujá, e ficou encantada. Ao final, procurou o diretor da peça, que lhe falou de um curso livre de teatro que ele e sua trupe ofereciam, que então ela se matriculou. Na terceira aula do curso, o diretor chamou Juliana para encenar uma peça no Teatro Procópio Ferreira, o principal de Guarujá. Ela foi e não gostou; tinha pouca experiência, ficou nervosa. Se sentiu frustrada ainda mais quando o diretor, depois da peça, sumiu e não deu mais o curso pelo qual Juliana havia pago duas mensalidades. Além de deixar na mão a então menina, também levou o dinheiro que ela havia pago para o curso. Dois anos depois, o mesmo diretor apareceu novamente. Como da outra vez, sem avisar. Dessa vez, pelo telefone, elogiou o trabalho dela em seu primeiro espetáculo na vida e convidou-a para fazer outro. Juliana queria tanto continuar no teatro que aceitou. Por dois anos trabalhou com o diretor em espetáculos infantis montados precariamente em escolas pela cidade, em que os atores e atrizes quase não ensaiavam, só “davam o texto”.

Nos próximos anos frequentou ainda mais alguns cursos livres de teatro pela Baixada Santista. “Todos ruins”, diz ela, entre sorrisos de quem sabe rir de sua própria história, até que em 2009 foi fazer a faculdade de Artes Cênicas na Universidade Estadual de Londrina (UEL). “Aí sim fui entender o que eu queria com o teatro, como ele poderia me ajudar a me descobrir como mulher, como mulher negra.” Difícil foi para sua mãe, que, separada do pai de Juliana desde que ela tinha 10 anos, morava junto com a filha e contava com o apoio dela constante para a sustentação da casa. Em Londrina Juliana fez parte da Estúpida Cia de Teatro, grupo formado na faculdade, e participou de outros coletivos de performance e dança, como “Acamar”, “Superman Versu_os” e “Encontre-me na praça às sete”. Durante seis anos fez da segunda maior cidade do Paraná sua casa, até sentir um chamado para voltar para perto do mar. Não mais Guarujá, mas a Bahia.

“Fui a Salvador fazer uma disciplina, como aluna especial na UFBA, chamada “Ressignificações estéticas na dança negra pós-moderna contemporânea”, ministrada pela professora Maria de Lurdes Barros Paixão. Fiquei três dias no Garcia, e logo me mudei para o Santo Antônio Além do Carmo. Além de comer muito bolo de carimã e abará, e dançar muito nas praças do pelô e na escadaria do paço, frequentei bastante a Funceb, como aluna nos cursos livres de dança. Também costumava ir ao espaço Barracão das Artes, nas aulas de tecido, e ao Forte do Santo Antônio, fazer capoeira com Mestre Aranha. A Bahia me tocou especialmente pelas trocas que foram todas muito intensas e imediatas, foi tudo muito especial por lá”.

De volta à Baixada por motivos pessoais e de saúde (sua e de seu pai), procurou aos poucos se integrar às atividades artísticas na região. Hoje colabora no movimento de palhaçaria feminina da Baixada Santista, as PRAIAÇAS, que a faz vir duas vezes por semana a Santos, normalmente de bicicleta e catraia, para ensaiar; e faz parte da Cia de teatro VozAvós. Também é participante do Coletivo Lua, formado por outras 4 ex-colegas da UEL e que trabalha a performance e a dança em espaços públicos diversos.

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Juliana atua e escreve para não se esquecer. A memória é um tema importante em sua vida: seu espetáculo de formatura em artes cênicas na UEL partiu de suas lembranças com a avó, Maria José da Silva, sergipana que viveu em Vicente de Carvalho e com que ela conviveu até os 15 anos. “Um Discurso sobre a minha vó”, o espetáculo, trava uma conversa intimista também com as memórias de quem está presente na cena. Sozinha no palco, emoldurada por uma luz amarela que nos transporta a uma fogueira, ou a um cômodo iluminado por velas, Juliana busca entender as tensões entre a lembrança e o esquecimento; o quanto a fala de sua vó, que poderia ser tantas outras mulheres negras, foi coibida, usurpada e não perdurou para as próximas gerações. “Vó, lugar que eu não conheço. Vó, lugar que eu reconheço. Guarda em mim algum segredo?” diz Juliana no espetáculo, que ganhou os prêmios de melhor texto original e figurino no Fescete (Festival de Cenas Teatrais) em Santos

Quem preserva a memória e luta para trazê-la também como alimento de sua arte pode se tornar uma pessoa tomada pela seriedade, como se o fardo da missão de carregar lembranças ancestrais fosse pesado demais para dar espaço para a leveza e a brincadeira. Juliana não; dilui o peso de buscar corrigir as injustiças históricas raciais e de gênero em um sorriso largo, uma fala mansa que transmite serenidade sem deixar de ser séria e compenetrada. Na apresentação dos integrantes da Colaboradora, a facilitação guiada pelo coletivo Etinerâncias propôs cinco tópicos; como quer ser chamadx; super poder; elemento; quero aprender; mulher de referência. Juliana, então, se apresentou como Luneta, seu nome de palhaça, que tem como super poder a harmonização, como elemento as matas, os pássaros, as árvores e as cachoeiras, que quer aprender canções e traz, como mulheres de referência, sua vó, mãe e Heloísa, professora de história de teatro da UEL e sua orientadora do trabalho final no curso. Nos primeiros dias da Colaboradora, ela era frequentemente vista sorrindo, conversando com os outros integrantes com sua voz suave e usando de seu super poder da harmonização. À noite, já em casa, ouvia música e escrevia. Tem uma relação desde a infância com a escrita, de diários, cartas, dramaturgia e, mais recentemente, poesia. O texto abaixo é um trecho do poema publicado por ela na revista Gorfo; se chama, não por acaso, “Reminiscências”.

“Eu, me olhando preta
Quando menina
Percebia as mágoas
Que moravam nas minhas
Aquelas batalhas relatavam uma sina

Minha mãe sem dar
Uma palavra ou sorriso
Esperava que o tempo
Nos desse abrigo
Nossos rostos de perto
Tinham o mesmo pedido

Eu era…
Eu era uma memória
Recente e episódica
Era uma falta de idade
Para a dureza da história”

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No sarau de encerramento da imersão inicial da Colaboradora, realizada no bar e armazém A Rainha do Norte, em Vicente de Carvalho, xs integrantes do projeto apresentaram uns aos outros a partir de suas habilidades artísticas, narrativas, mágicas, malabarísticas. Depois, o espaço ficou livre para quem quisesse falar, dançar, cantar, performar. Juliana, de turbante colorido no cabelo e blusa leve azul, sentada numa das cadeiras do u formado com todxs participantes num canto do bar, num brevíssimo tempo de silêncio entre uma apresentação e outra, irrompeu com sua voz alta e clara, como se tivesse em cena:

“Tia Anastácia está revoltada
Tia Anastácia está revoltada
Eu encontrei tia Anastácia e ela me disse estar totalmente revoltada
Ela que faz as tortas, os doces, os bolos e a Dona Benta que leva a medalha?
Tia Anastácia está revoltada
Tia Anastácia está revoltada
Farinha de trigo tem que ser tia Anastácia e não Dona Benta.”

(Giovani Sobrevivente, poeta de Salvador)

* Pedimos para cada integrante da Colaboradora trazer um objeto que fosse representativo para ser retratada. Juliana trouxe uma caixinha, um amuleto e um cachimbo que pertenciam ao seu avô, Pedro Piaba

 

PROJETO

O projeto pretende realizar uma escuta sensível da Bacia do Mercado de Santos através de vivências cotidianas na região, e a partir dela desenvolver uma produção artística que compreende a criação de haicais ( forma poética de origem japonesa), e a construção de partituras físicas inspiradas nestes haicais, para as quais serão feitos também pequenos vídeos.