Por Leo Foletto

Na primeira manhã de Colaboradora, um jovem negro de bermuda, chinelo, blusa verde clara da seleção nigeriana e dreads grossos no cabelo escuro chegou empolgado ao LabxS. Um dos selecionados na chamada pública, ele já conhecia o Lab de trombar com alguns amigos que frequentavam o espaço, mas pela primeira vez estava no nº 52 da Sete de Setembro para se reunir com outras pessoas em um projeto no qual também fazia parte. Foi à mesa posta do café da manhã, pegou café, pão e bolo, comeu, falou pouco com os participantes que também faziam seu desjejum e logo seguiu para a primeira atividade da imersão inicial da Colaboradora. Ao contrário de atrizes, dançarinas, escritoras e músicos ali presentes, ele se expressava de forma mais comedida, entre ansioso e tímido, no primeiro contato com os participantes da Colaboradora. Quando foi sua vez de se apresentar perante todos na roda criada, foi um dos mais rápidos; disse que seu superpoder era a criatividade, que as formas geométricas o caracterizavam enquanto elemento, que gostaria de aprender a ser mais organizado e que tinha como mulher de referência sua companheira, Marcela, que inclusive lhe ajudou a encaixar as ideias e escrever seu projeto na chamada da Colaboradora. E que gostaria de ser chamado como todos que o conhecem se acostumaram a lhe identificar: Mid.

Mid foi o apelido que ganhou quando andava de skate na Praça Palmares, no Macuco.  Quando alguém chamava por Marcelo, vários atendiam. Um dia, um dos seus amigos na região passou a identificá-lo como “Midnight”, e pegou; no mesmo dia vários outros amigos também aderiram ao apelido na hora de se referir a Marcelo Ferreira Rosmaninho, nascido em São Paulo há 23 anos atrás. “Na época eu não tinha muito a noção de que era um apelido meio racista; eu era o único negro dos Marcelos, por isso virei midnight”. Hoje gosta do apelido prefere que lhe chamem só de Mid; é essa a assinatura do seu trabalho nas ruas, no Tumbrl, no Instagram e também no Facebook.

Mid trabalha como artista gráfico e fotógrafo. O primeiro como seu trabalho prioritário, o segundo mais para lhe ajudar a pagar as contas; um durante a semana, outro durante alguns finais de semana. Mid não tem ateliê; faz da casa onde está, seja de amigos ou dos pais de sua companheira, seu local de trabalho. Não é algo que ele gosta, mas que faz parte de sua condição atual de não ter uma casa para chamar de sua. Vai trabalhando quando dá nessas espaços, cuidando para não sujar muito os ambientes. Seu tipo de arte gráfica usa diversos elementos da rua, como fotos antigas, folders e panfletos de construtoras, que ele costuma combinar com tinta, caneta, até máquina de escrever, formando colagens abstratas, críticas à especulação imobiliária e ao consumismo exacerbado que constroem uma identidade muito própria para sua arte.

Acervo Mid/Reprodução

Marcelo não tem contato com seus pais desde os 17 anos. Saiu de casa e foi morar no CES, o Centro Estudantil de Santos e da Baixada Santista, entidade estudantil mais antiga no país, fundada em 1932 e situada num casarão antigo da Avenida Ana Costa, uma das principais vias acesso da região central à praia. Lá, estimulado por um amigo artista, Yuri Scavinski, que viu que o então garoto desenhava muito bem, migrou do pixo para a pintura, nos muros mas também em outros suportes – papéis, papelão, folders, panfletos e tudo o mais que Mid desejava usar como base para suas criações. Foi no histórico CES, celeiro da resistência estudantil por décadas em Santos, que Mid começou sua carreira e deixou rastros – como essa parede pintada em 2016. “Eu já era muito marginalizado na rua por ser preto, pensei que a arte seria uma válvula de escape”.

Desde que o projeto começou, Mid é visto com frequência no Lab pintando, conversando e andando pelos arredores da Bacia do Mercado com seu skate, companheiro inseparável dos seus rolês. Junto com seu amigo e o CES, foi o skate que o levou para a arte, e também é da cultura em torno das quatro rodinhas que circulam boa parte de suas referências musicais, como a banda santista Garage Fuzz, uma das mais influentes do hardcore brasileiro nos anos 1990 e 2000. Quer, ao longo dos 10 meses de projeto, vincular o seu trabalho ao entorno da Bacia do Mercado, dar voz às pessoas dos arredores e fazê-los também pensar e criar arte. Deseja que a Colaboradora seja seu ateliê de trabalho, o que de certa forma já é; junto com Aline Benedito (Fixxa) e Bruno Malagrino, foi o autor da primeira obra artística do projeto, numa rua próxima ao Lab. Quantas obras Mid fará até o final do projeto? Faça sua aposta.

* Pedimos para cada integrante da Colaboradora trazer um objeto que fosse representativo para ser retratada. Mid trouxe um dos pincéis que usa no dia a dia.