A Marcha Cega é uma performance de arte contemporânea que intercala um deficiente visual e um não deficiente com os olhos vendados em uma caminhada por ruas movimentadas. O objetivo é criar uma reflexão sobre a empatia, preconceito e violência cotidiana

Os guias da Marcha Cega reuniram-se na Praça de Independência

A atividade ocorreu no dia 25 de março em São Vicente e Santos e é uma das ações contempladas pelo Circuito LABxS (Lab Santista).

Convidado por Lucas Brolese, organizador e idealizador da Marcha Cega, fui colocado em segundo lugar na fila.

À frente e guiando o grupo, Samuel de Aquino, 34, vendedor de guloseimas. Atrás, Marcos Alberto Correa, 36, que também trabalha como vendedor.

A fila da Marcha Cega foi composta por nove guias deficientes visuais e 25 participantes.

Tapando os olhos, despertando a audição

Ao tapar os olhos, ainda surpreso e com um pouco de receio, entrei em outra dimensão. Com a escuridão, automaticamente, todos os meus sentidos submeteram-se à audição.

Quando uma escada de seis degraus torna-se um obstáculo

Enquanto os outros participantes preparavam-se, parecia que o som das conversas, do trânsito e da cidade era mais presente. Criei um senso de localização e passei a guiar-me espacialmente pelo ouvido.

Mas a experiência só foi interessante até o primeiro passo da caminhada.

Arrastando os pés

Foram dez passos curtos, arrastando os pés, para chegar até o primeiro obstáculo: os seis degraus da escada arredondada da Praça da Independência.

Apoiado no guia Samuel, usei a sola dos pés para sentir a ponta dos degraus. As pernas tremeram. Não senti medo, mas desconforto.

Além da audição, agora estava guiando-me pelo toque dos pés no chão. Meu maior aliado para vencer o relevo da calçada.

Márcio Barreto

Lucas Brolese e a Marcha Cega em São Vicente. Fotografia: Márcio Barreto

Depois de esperarmos o restante do grupo, a parte que mais me causava aflição: atravessar a rua.

O barulho dos automóveis e motos é um incômodo. Você perde a dimensão da proximidade porque existe variação de ruído entre os veículos. É possível escutar detalhes mínimos, como o pé no acelerador de um veículo parado em ponto morto.

Jamais imaginei que a aceleração de uma moto, que provavelmente passou distante e em outra direção, causaria transtorno e calafrios.

Márcio Barreto

Marcha Cega em São Vicente. Foto: Márcio Barreto

Depois de atravessar os semáforos, sinto um forte aroma de café e percebo que já havia perdido a localização. Foi o olfato que me fez repensá-la, mas o alerta veio de Marcos: “Estamos próximos da banca de jornal, da livraria Martins Fontes e do Café Floresta”.

Meu GPS pessoal, em colapso, estava me dizendo que tínhamos caminhado em sentido contrário.

Interação

Nas calçadas do Gonzaga, começou a interação com outros pedestres e senti segurança com o guia Samuel.

Conhecido por vender doces no bairro, diversas pessoas o cumprimentavam. Algumas ele contestava chamando pelo nome. Samuel reconhece alguém pela voz.

As ruas e calçadas do Gonzaga, comparadas com outros trechos da cidade, podem ser consideradas boas para caminhar. Porém, mesmo os pequenos desníveis incomodam e a jornada é lenta.

Samuel era sempre alertado para andar mais devagar. “Tem gente que não acredita que sou cego”, contou.

Marcos estava sempre de bom humor, fazendo piadas com o medo dos outros participantes e cumprimentando os pedestres.

Noção de tempo

Não consigo precisar quanto tempo demoramos para chegar até a avenida da praia. Mas confesso que, ao final, estava exausto.

O corpo cansado de rastejar os pés e usar a audição como sentido principal.

A chegada até a avenida Presidente Wilson teve sentimentos conflitantes. O frescor do vento e a brisa do mar foi um alívio, mas o barulho dos veículos tornou-se ainda mais intenso.

Marcha Cega em Santos

Era possível sentir a velocidade dos automóveis e uma buzina assustou o grupo. “Parece que está aqui em cima de nós”, comentou uma garota na fila.

Os semáforos da avenida da praia contam com sensores sonoros para deficientes visuais, mas o tempo é curto: Samuel apertou o passo e Marcos me empurrou. “Aqui tem que ser rápido”, comentou.

Na praia

Caminhar pela areia era mais confortável e o silêncio da praia também trouxe uma sensação de tranquilidade.

Com a falta de obstáculos, começamos a caminhar mais rápido. Pela primeira vez deixei de rastejar os pés.

Sacar as vendas trouxe a certeza que, se as cidades não são feitas para os pedestres, elas esmagam e sufocam os deficientes.

Sobre a empatia

Para sentir a empatia é preciso mergulhar em outros sentidos. Especialmente a audição: é preciso escutar as diferenças.

Tive que vendar os olhos para entender que uma escada de seis degraus, uma guia ou um buraco podem ser um obstáculo para determinado grupo social.

Quantos outros obstáculos são gerados pela falta de empatia e a violência cotidiana?

Certamente, negros, indígenas, mulheres, homossexuais, moradores de periferia e outros grupos enfrentam obstáculos “invisíveis” todos os dias.

O que a Marcha Cega nos ensinou é que ao vendarmos os olhos para o nosso mundo, esse a que estamos habituados, um outro se apresenta, mobilizando novas escutas e sentidos e nos permitindo reconhecer e aprender coma as dificuldades alheias.