Marina Guzzo chegou nos primeiros dias de imersão da Colaboradora atrasada. Enquanto boa parte dos integrantes já estava ali desde às 9h da manhã a tomar seus cafés, comer bolos, frutas e conversar ao redor da mesa com os alimentos, ela estava em outra mesa, também de café, a alguns quilômetros da Sete de Setembro 52, no canal 5, junto de seus dois filhos pequenos. Acordou com eles, tomou café, logo os deixou na escola e partiu para seu trabalho como professora na Unifesp, no campus da Baixada Santista. Nos dias que conseguiu chegar na Colaboradora, ou foi no final da manhã, ou no período da tarde. Não porque não queria, mas porque tem rotina dupla, de mãe de filhos pequenos e professora, em boa parte das manhãs. Não é a única participante do projeto com essa rotina; Ugo é pai de duas filhas pequenas e professor de música em escolas – e também não participou das atividades pela manhã. O tempo dos cuidados e dos pequenos é diferente do tempo produtivo da maior parte dos adultos, e tudo bem que seja assim; a Colaboradora e seus integrantes respeitam e têm considerado isso em seu processo.

Artista e pesquisadora das artes do corpo, Marina (ou Nina, como se identifica no Facebook) tem mestrado e doutorado em Psicologia Social pela PUC-SP e pós-doutorado pelo Departamento de Artes Cênicas da ECA-USP. Dá aulas, escreve textos e cria intervenções urbanas com seus alunos e em comunidades, como na Vila Mathias, sede do campus da Unifesp em Santos e próximo do LabxS. É pesquisadora do Laboratório Corpo e Arte e coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Dança – N(i)D e idealizadora do programa Coreográficas, da Rádio Silva, projeto de extensão ligado à Unifesp. O programa,  apresentado em formato de “drops” na programação, investiga a relação entre música e dança a partir de obras coreográficas e suas trilhas sonoras. Em cada edição, apresenta uma música e cria o contexto para imaginar como ela poderia ser dançada.

A área em que atua profissionalmente, as artes do corpo, engloba dança, performance e circo para explorar os limites do corpo e da subjetividade nas cidades e na natureza. Seu site, sua bio e seus projetos dão uma mostra prática do que isso signfiica; de danças inspiradas num texto do anarquista ontológico Hakim Bey às delicadas coreografias realizadas com mulheres residentes da região noroeste de Santos, são movimentos de corpos que criam narrativas, simbolismos, sensações, imagens e impressões. Marina dirige, produz e dança, o que exige certos cuidados não só com o corpo, mas com a mente: todo dia faz um tipo de prática, que pode ser yoga, pilates, meditação ou só respirar sozinha, em silêncio por 5 minutos. É a forma que se conecta consigo.

Como já dito, Marina é mãe, e isso não é um detalhe ainda mais para quem trabalha com o corpo. “Meus dois filhos pequenos mudaram muito a minha relação com o corpo, com a cidade e com a natureza. Depois de parir, me senti mais bicho, muito mais corajosa. Mas novos medos vieram: ser mãe e mulher nesse mundo tão violento, em destruição, colapsado! Estou interessada em como a arte pode nos ajudar a transformar a sensibilidade em relação a nós mesmos e aos outros. Gaia é uma mulher”, diz. Ela acredita que a arte tem uma potência política muito grande; primeiro de despertar a presença e o pensamento sobre a diversidade, depois de despertar espaços e rituais comuns, onde a gente encontra outras pessoas e faz coisas juntos para criar sentido para nossa existência. É também por conta disso que gosta de estar em processos criativos que envolvam pessoas, comunidades, objetos e espaços que buscam mudar as hierarquias, os usos e a própria ocupação urbana.

Diante dessa relação com o território, as pessoas e a colaboração, é mais fácil entender porque Marina se inscreveu na chamada pública e está na Colaboradora. “Quando eu li a chamada eu pensei: ‘nossa, é exatamente isso que eu faço e acredito que podemos fazer como artistas, quero encontrar esses amigos!!!’. E tem rolado isso. Um espaço de encontro, de trocas e de pensar futuros para meu trabalho, para o trabalho dos outros, para a cidade, para esse território”. Mesmo com as dificuldades da rotina atribulada de mãe e professora universitária que vive entre São Paulo e Santos, têm tentado estar presente quando pode no LabxS. “Cada dia tem uma montanha para subir (às vezes descer). Essa montanha é real (a serra do mar) ou metafórica, uma aula, um ensaio, uns problemas, uns artigos, umas reuniões. Trabalho sempre com gente, e isso me encanta. ‘gente, espelho da vida, doce mistério’”.

Foto do trabalho 100 lugares para dançar, parceria de Marina com Vinícius Terra

“Quero poder dançar sempre. Fico muito feliz quando estou dançando e também quando estou perto do mar”. Como o LabxS é perto do mar e tem muito espaço e parceiras para dança, solitária ou em conjunto, forró ou experimental, improvisada ou coreografada, é de se imaginar que Nina seja feliz nestes 10 meses de Colaboradora.

* Pedimos para cada integrante da Colaboradora trazer um objeto que fosse representativo para ser retratado. Marina trouxe as pedras. Ele dá mais detalhes de sua escolha: “meu último projeto tem a ver com as pedras, que estão no caminho, como empurrar, saltar, mover ou conviver com elas. Também como construir coisas junto. Criar rituais a partir delas, que são fundamento para qualquer alicerce. Artista é pedreiro: carrega peso, constrói parede, derruba casa, resolve problema de infiltração, inventa solução para deixar a vida das pessoas melhor, mais bonita e às vezes cria alguns outros incômodos a partir dos deslocamentos”.

 

PROJETO

Converse com xs artistas é uma proposta de intervenção urbana na área da Bacia do Mercado com xs artistas participantes do projeto Colaboradora. A ideia é coreografar um estado de presença e encontro com o território. Sairemos todos juntxs do Instituto Procomum, carregando duas cadeiras coloridas e daremos início a um jogo: ficaremos sempre juntos, nos deslocando e sentando pelo espaço, recebendo as pessoas que desejam conversar e estar com a gente, sobre a vida, sobre arte, sobre estar e viver ali. Ou apenas estaremos. O projeto pretende dismistificar a figura do artista para o território e dismistiicar o território para o artista, aproximar o encontro, colorir a cidade, com a possibilidade de um tempo em comum.