Marina Paes nasceu em Salvador, mas com um ano já foi morar em São Paulo, cidade originária da maior parte de sua família. Na capital paulista teve uma infância de muitas brincadeiras na rua com os vizinhos, em especial numa sem saída de paralelepípedos no Jardim Monte Kemel, zona oeste da cidade, onde morava. Era um bairro muito tranquilo, conta, mas com o tempo se tornou mais perigoso, o que fez seus pais lhe proibirem de brincar na rua. Como muitas crianças dos anos 1990, teve que trocar a rua pela casa, e, dentro dela, pela televisão; chegava da escola, sentava no sofá e passava a tarde assistindo os mais variados programas na TV aberta,  Hoje, aos 32, como muitos dessa geração, não tem TV em casa. Conta que uma pessoa muito importante em sua formação foi a vó Yá, que ia passar temporadas de três a seis meses em sua casa. ”Eu e ela conversávamos bastante, gostava de deitar no colo dela, ela me alisando, acariciando. Ficava também observando ela cozinhar, gostava de raspar as massas dos bolos que fazia. Dormíamos no mesmo quarto, e eu lembro também de ouvir, à noite, as músicas clássicas que ela escutava, na rádio Cultura, sintonizada de um rádio relógio”.

Aos 17 anos, Marina passou no vestibular da UNESP para Psicologia e foi morar em Assis, cidade no sudeste paulista. Lá, viveu por nove anos; terminou a faculdade, fez um aprimoramento profissional em saúde mental e saúde coletiva, na Secretaria de Estado de São Paulo, e um mestrado sobre participação popular na saúde mental coletiva, também na UNESP. Embora já tivesse feito aulas de teatro aos 14 anos, foi ainda no seu 3º ano de faculdade que a arte ganhou maior espaço em sua vida, a partir do envolvimento com um grupo que montou um espaço cultural na zona operária da cidade e que abrigou iniciativas como o Instituto do Negro de Assis – Zimbauê, a Pirassis (Associação dos Usuários, Familiares e Amigos da Saúde Mental de Assis), a Casa do Ator, a Trupe Retalhos e a CIRCUS (circuito de interação de redes sociais).

O Galpão Cultural, como foi chamado o espaço, se tornou um Ponto de Cultura reconhecido pelo Ministério da Cultura, mas depois de cinco anos, sem apoio dos poder público, teve que mudar para um outro galpão, às margens da Estrada Férrea Sorocabana, famosa ferrovia que ligava Sorocaba à São Paulo. Como conta Marina: “Ocupamos um galpão que estava fechado há tempos. Descobrimos que pertencia à União (apesar de antes alojar a empresa de cimento de um deputado). Estudamos bem o local, a movimentação, documentos. Chamamos um chaveiro para estourar um cadeado, analisamos por dentro, vimos que atendia às nossas demandas, apesar da limpeza e reforma terem que ser super intensivas. Fechamos o cadeado e marcamos de voltar outro dia, com mais pessoas e já com nossos pertences”. Voltaram, e estão até hoje nesse espaço, com uma programação cultural ativa.

Mergulhatu; Marina è a da direita da foto (fonte: Facebook pessoal).

No Galpão originaram-se vários projetos culturais de teatro, circo e música que Marina esteve envolvida. Entre eles o Circo Oficina Galpão Cultural, que a teve como aprendiz e depois instrutora, além de diretora de alguns espetáculos, como “A Incrível Mulher Tatoo do Circo de 30”; e o Mergulhatu, grupo de maracatu, coco, jongo, ciranda e outras manifestações culturais populares da região Nordeste que se apresentou nas Viradas Culturais Paulistas em 2010, em Assis, e 2011, em Presidente Prudente, entre outros lugares na região.

Em 2014, quando terminou o Mestrado, depois de uma estada breve em São Paulo, Marina foi se achegando a Santos. Seu interesse pela cultura se aproximava cada vez mais da educação e da saúde, e pensou que a Baixada poderia ser uma oportunidade de morar perto do mar, com mais tranquilidade e facilidade de deslocamento, sem ficar muito longe da capital, e desenvolver seus projetos na intersecção nestas três áreas. Junto com um amigo professor, passou uma virada de ano na praia com um casal de amigas, o que a ajudou a decidir procurar procurar apartamentos na região junto com seu amigo. Em cerca de três meses visitaram diversos até chegar a um apartamento amplo, no Boqueirão, próximo ao Canal 3, onde quatro anos depois ainda é a sua casa. “É um predinho baixo, perto da praia. Tem ares de casa, vários árvores em volta, poucxs moradorxs. Um achado”.

Depois de alguns cursos de gestão cultural, projetos realizados e editais ganhos, Marina hoje (2018)  não trabalha mais na área da saúde, embora mantenha seu interesse pela área. Se vê como uma articuladora e gestora cultural versátil, não apenas produtora, e está em busca de estabilidade financeira nessa área. Tem uma rotina caseira, trabalha em seu apartamento – em junho de 2018 era produtora do espetáculo F.A.L.A (Fragmentos Autônomos sobre Liberdades Afetivas), do Coletivo Negro, de SP. Vegetariana, ou “peixetariana”, apelido para quem come vegetais e peixes, mas não outras carnes, cozinha quase todos os dias em casa – “modéstia à parte, muito bem”; faz exercícios diários numa academia, onde também presta alguns serviços de administração, e vai com frequência ao LabxS. Sua relação com a sede do Instituto Procomum vem de fazer parte do grupo “Mulheres e o Comum” e como produtora do projeto Transfinitos, um dos selecionados na 1º edição do Circuito LabxS (2017).

Uma das participantes convidadas pelo júri, Marina também está fazendo relatos do que anda ocorrendo na Colaboradora. Sua expectativa para os 10 meses de duração do projeto é a de que “flua, que consigamos nos encontrar, fazer coisas inclusive que fujam da nossa expectativa. Que seja vivo, bonito, dialogar e crescer juntos. Que a arte transborde”.