Por Marina Pereira, produtora do Instituto Procomum

Fotos: Victor Sousa

Entre os dias 21 e 24 de setembro aconteceu a oficina “O fortalecimento do comum e das redes de cuidados”, mais uma atividade do Círculos, ciclo de formação contínua do LABxS (Lab Santista) e Instituto Procomum. Em parceria com o Coletivo Novo Paraíso, de Cubatão-SP, o encontro foi facilitado pelo coletivo Etinerâncias e Red Co.Madre: Saberes en Red, Memoria y Cultura Viva  que já estudou e vivenciou práticas e experiências de comunidades tradicionais e espaços de resistência (ocupações, assentamentos, favelas) pelo Brasil e América Latina.

Marina Pereira, produtora do Instituto Procomum e LABxS (Lab Santista), faz um relato afetivo sobre o encontro. Leia abaixo:

Primeiro dia: visitando a comunidade

No primeiro dia do encontro conheci pessoalmente os três integrantes do coletivo Etinerâncias: Raissa Capasso, Gabriel Kieling e Débora Del Guerra em uma Kombi charmosa e cheia de objetos que por si só já despertam a curiosidade sobre as histórias vividas em suas viagens. Seguimos com Georgia Haddad, diretora do IP, de Santos para o Cubatão.

Ao chegar, conhecemos o que representa o Coletivo Novo Paraíso – um espaço de resistência cultural idealizado por André Luiz – para a comunidade e para a cidade. Fomos apresentados  à história do bairro Pinhal do Miranda e as contradições de estar localizado em uma cidade que já foi considerada a maior poluidora do estado de São Paulo, mas possuí imensa riquezas naturais.

O bairro é próximo da Rodovia Anchieta, que liga as cidades de Santos e São Paulo, encostado na Serra do Mar e toda a sua abundância de mata atlântica, fontes de água, mangues e cachoeiras.

A importância e potência do CNP ( Coletivo Novo Paraíso) pode ser observada na interação da comunidade com o espaço: nosso papo foi interrompido algumas vezes por moradores que passavam cumprimentando o anfitrião André. Ele nos contou sua trajetória de manter um pequeno comércio local e dividir o espaço com o centro cultural. O idealizador do coletivo transformou o espaço comercial da família em um ponto de encontro, cultura e arte.

Atualmente, a sede do coletivo está passando por reformas para melhorar a estrutura e poder receber mais pessoas e eventos.

O processo de escuta atenta do coletivo Etinerâncias me tocou bastante desde o início. Em nenhum momento auma metodologia era engessada para ser aplicada aos participantes. Acompanhei de perto a construção que faziam diariamente antes, durante e depois das oficinas diárias, tudo pensando para e com a comunidade.

Já havia visitado o bairro algumas vezes e me surpreendi ao descobrir tantas iniciativas de seus moradores como a do “Filho de Deus”, responsável por uma horta comunitária e o Projeto Com Com – Comunicação Comunitária.

Segundo dia: uma conversa sobre resistência e colaboração

Recebemos o Etinerâncias na sede do LABxS em uma roda com cerca de 30 pessoas. Assistimos registros em vídeo de seu trabalho em quilombos, aldeias e comunidades do Brasil e da Latino América. Raissa e Débora falaram sobre a Rede Co.Madre, uma plataforma digital colaborativa e aberta que, por meio do automapeio dos saberes e fazeres das mulheres reúne um acervo audiovisual para intercâmbio e fortalecimento das estratégias protagonizadas por mulheres em diversos territórios.

Roda de conversa do Etinerâncias na nova sede do LABxS (Lab Santista)

Roda de conversa do Etinerâncias na nova sede do LABxS (Lab Santista)

O encontro foi marcado por vídeos, documentos e compartilhamento de saberes de mulheres da Colômbia, México e Brasil. Conhecimento que pode ser ignorado pelo poder público e imprensa tradicional, mas é o que move as redes de cuidado e a vida nas cidades da América Latina.

No final ficou o questionamento: o que seria das cidades e da vida na América Latina sem as mulheres que todos os dias cuidam dos filhos, da casa, da família, do alimento e das comunidades?

Terceiro dia: as dificuldades e belezas do bairro

Voltamos à comunidade do Pinhal do Miranda e fomos recebidos na escola municipal Alagoas que ocupamos até o fim da oficina. Com dinâmicas lúdicas, o Etinerâncias nos guiou a uma emocionante conexão com nossa força individual e coletiva.

Em brincadeiras coletivas, percebemos o quanto a cultura da competição e do individualismo está enraizado em nossas vidas. Também ficou claro como, apesar de termos todo o conhecimento necessário, temos poucas estratégias para lidar com os problemas que nos afligem.

Também refletimos e falamos sobre a importância de nos reconhecermos dentro de um território, as dificuldades e potencialidades do mesmo e nossa capacidade de construir pontes para ações de resistência política e cotidiana.

Nesse dia tivemos o prazer de conhecer Dona Madalena, a Madá, que participou da atividade nos presenteando com lindas histórias e sua forte e essencial presença, como uma referência daquela comunidade. Dona Madá é um espécie de heroína local. Ela já trabalhou em uma horta comunitária, realiza atividades de artesanato para mulheres e trabalha na feira. Carinhosa e cuidadosa, distribuía abraços e resgatava memórias do bairro. No fim do dia, após conversarmos sobre as belezas e dificuldades da comunidade, bravou um lindo: “É nós por nós”. Madá representou pra mim a força de todas a mulheres periféricas.

Refleti sobre a quantidade de história, saberes e potências que existe naquele território. Os problemas são muitos, mas nesse exercício ficou claro como a própria comunidade pode ter as respostas para eles. Falta canais e escuta para tornar isso possível.

Quarto dia: colaboração para atuar

No último dia de oficina, o Etinerâncias provocou uma reflexão sobre a atuação individual para a construção de um coletivo. Fomos tecendo conhecimentos para entender de que forma podemos atuar em rede, valorizando nossas expertises e vivências.Senti esse dia como um resgate de nossas capacidades para protagonizar nossos sonhos de um mundo mais colaborativo e comum.

Vale lembrar que o coletivo utilizou uma metodologia na qual as pessoas dispõem seus saberes para a rede de acordo com o momento em que estão vivendo.
O dia acabou como em um ritual, na verbalização do que cada participante sonhava para aquela comunidade e para o Coletivo Novo Paraíso. Sonhamos juntos e, entre sonhos e realizações agradecemos pelo encontro nessa encruzilhada com a vontade de seguir construindo projetos juntos.