Matheus Ferreira de Mattos Coelho se fez conhecido por Révi, seu apelido, logo nos primeiros minutos da imersão inicial da Colaboradora. O rapaz barbudo, de estatura mediana, camisa florida e bermuda, é daqueles que, como diz o senso comum, “chega chegando”: comunicativo e falante, cumprimenta a todes, conversa alto, canta, dança, conta histórias, faz malabares e raramente perde a oportunidade de provocar. Uma de suas primeiras provações foi logo nas primeiras horas: na apresentação da imersão, enquanto outros citaram elementos como fogo, natureza, ar para se identificar, ele citou “erva”. Na hora de trazer uma mulher que fosse referência para ele, a provocação se deu a partir de um resgate inusitado: falou de Maria Doze Homens, importante nome na história da capoeira. Maria Felipa, o provável nome de Doze Homens, ficou conhecida por lutar na Guerra da Independência, que ocorreu entre 1822 e 1824 na Bahia para confirmar a independência brasileira perante Portugal. Conta a história (não totalmente confirmada) que Maria Doze Homens enfrentou as tropas do Exército Português com um grupo de 40 mulheres e atacou os guardas, promovendo grandes baixas no exército, por isso ganhou seu nome e se tornou uma das ainda poucas mulheres lembradas na história da capoeira.

A valentia de Maria inspira Révi a se manter forte naquilo que ele se identifica: ser artista de rua. Sua trajetória até aqui percorre muitos caminhos distintos – da música ao circo, do teatro ao desenho, da maconha às ocupações culturais – e tem a rua como elemento agregador. Seja com o Circo Periférico, seu atual projeto, ou fazendo malabares com facas, bolas ou outros objetos nas sinaleiras, Révi é mais facilmente encontrado ao ar livre, no contato direto da arte com seu público. Talvez por isso seu jeito seja expansivo e direto: só quem trabalha na rua sabe o quanto chamar atenção é essencial, esperteza é pré-requisito e malandragem elemento quase indispensável para sobreviver. Révi traz estas caraterísticas e mais uma que o aproxima a outrxs vários da Colaboradora: ser múltiplo.

Fonte: Facebook pessoal

Se não, vejamos uma breve lista de projetos e causos na vida de Révi até aqui. Mateus estudou durante cinco anos violoncelo no Teatro Municipal Brás Cubas, em Santos. Lá reforçou boas noções de musicalidade que já tinha tido na infância e que são importantes para o que faz nas ruas e no Ciro Periférico. Hoje toca violão e canta com desenvoltura, não se furta a pegar o instrumento de cordas em rodas de amigos ou desconhecidos, e é visto frequentemente tocando um pandeiro ritmado em rodas de samba. Foi assim nos primeiros dias da Colaboradora, inclusive na catraia que levou todos os participantes à Ilha Diana e a Vicente de Carvalho, do outro lado do canal do Porto de Santos. Nesse dia, puxava no pandeiro e na voz sambas diversos que outros iam atrás.A partir daí, tornou-se uma espécie de imã para quem quer cantar, tocar e fazer festa no LabxS: é só vir pra próximo de Revi que é bem provável que ele vai te dar apoio no som, na percussão e na animação ao redor.

Depois dos anos de estudo de violoncelo, Révi deixou de frequentar o circuito da música de concerto por considerá-lo muito elitista; como já havia tido experiências com malabares durante a formação, decidiu que seu caminho mesmo era uma arte mais próxima do público, seja a arte musical, circense ou cênica, e não tocar músicas do século passado para pessoas sentadas. De um modo torto, sua formação em um instrumento mais conhecido no meio erudito como o Tchello contribuiu para seu trabalho como artista de rua.

A lista de causos e caminhos até aqui de Révi inclui sua vivência em prédios ocupados por artistas, as chamadas ocupas culturais. Entre elas, a Ocupa do Ouvidor, um edifício em pleno coração de São Paulo, na rua do Ouvidor 63, ocupado por um grupo de dezenas de artistas de vários lugares do Brasil, considerada uma das maiores ocupações culturais da América Latina De lá circulou por outras ocupas e participou do movimento #OcupaMINC, criado por diversos artistas e produtores culturais em vários lugares do Brasil como ato de resistência à posse do então vice-presidente Michel Temer, em maio de 2016. Circulou pelo interior de São Paulo e especialmente pelo Rio de Janeiro, onde participou do grupo de artistas que ocupou o Palácio Capanema, no centro da cidade. Lá fez amigos, aprendeu sobre tudo e chegou a dormir durante dias numa barraca na praia de Copacabana junto de outros artistas de rua.

Aos 23 anos, Révi hoje se vira com sua arte nas ruas e, às vezes, fazendo bico de vendedor de produtos de limpeza com um amigo. Quando precisa, os dois pegam o carro, lotam de produtos e saem a vender pela periferia de Santos. Muitas vezes é desse trabalho que vem o dinheiro para pagar seus gastos diários. O Circo Periférico é o seu foco hoje; com ele, busca levar a arte para “espaços onde nem o básico para sobreviver chega”, como dito na página do grupo. Révi é um ativista pela liberação do uso da maconha e tem se iniciado nos desenhos digitais. Desde que a Colaboradora começou, adotou o LabxS como sua segunda casa; tem usado o espaço como incubadora de seus projetos com circo, malabares e arte de rua, inclusive uma parceria com outro colaborador afeito às artes circenses como ele, Ewald. Já tramam apresentações nas praças e ruas ao redor e um cabaré mensal. Parte de seu objetivo com a Colaboradora ele já está fazendo acontecer: tornar o espaço um lugar para os caiçaras, como ele, mostrarem sua arte.