Texto por Victor Sousa e Fernando Hermógenes
Fotos por Victor Sousa

Fernando Hermógenes é um artista que vive a precariedade. Não fica circulando afirmado ou esperando pelos museus, editais, patrocínios. Resiste na rua, no barro, na roça, nas paredes inventadas por ele. Mas a arte vive em qualquer objeto, floresce em qualquer terreno. E pode subverter os conceitos de escassez, criar abundâncias, gerar encontros – outras formas de saber.

Pode também abrir e fechar museus. Outros museus, quantos quiser.

Fernando Hermógenes é um dos artistas do Programa LABxS Residências 2018. Durante sua estadia, procurou objetos pelas ruas da Bacia do Mercado, Santos-SP, para criar o Museu do Objeto Encontrado.

“A precariedade é um recurso do meu trabalho, especialmente pela dificuldade em acessar alguns espaços e financiamentos. E agora, depois de muito tempo de trabalho, não quero fazer outra coisa. A precariedade já virou uma pesquisa, um modo de fazer”, conta Hermógenes.

Em suas buscas, encontrou preciosidades. Muitos objetos descartados, em boas e em horríveis condições. E refletiu como essa é uma contradição da cidade e de nós mesmos: da riqueza do porto em contraste à pobreza das margens, da precariedade em que as pessoas que trabalham com cultura estão submetidas. E de como a cultura do descarte está enraizada em nós.

“A ideia do museu não é fazer com que esse objeto tenha uma vida útil estendida/reformada ou que volte a ter sua função primária. A ideia é potencializar processos artísticos com o que se encontra, pelo qual não paguei e que está disponível, jogado. Eu tenho acesso a um objeto encontrado na rua e ele se torna meu objeto de auês”, conta Hermógenes.

E os objetos encontrados na rua tem feito muito por Fernando Hermógenes, que se relaciona de forma intensa com eles – fogo, música, dança e o constante toque que investe nesses processos.

As pessoas implicam: Porque você anda com uma câmera que não funciona? Que não tira fotos? Com microfone e teclado quebrados, taças extravagantes e tecidos estranhos?

Os objetos do museu são acessórios. Não servem. Ele poderia consertá-los, mas deliciosamente não quer. É contramão. Você precisa passar um tempo com Hermógenes para digerir sua maneira de estar no mundo e de compartilhar suas ideias, palavras e propostas.

Neste tempo, você provavelmente será convidado a estar em algum canto, com poltronas douradas e uma mesa improvisada com objetos encontrados na qual café e bolo são oferecidos.

Daí, começa uma conversa. E em seguida você está envolvido, quer dançando quer quebrando algo ou ainda takando fogo em tudo, sem perguntas ou defesas, mas essencialmente em um acontecimento. E não acaba.

“A gente brinca mais com estes objetos, esquece limites, despreocupa-se. Nada de guia de sobrevivência ou manual de instruções – este é o tipo de papel que a gente gosta de queimar pra alimentar o fogo do museu. Existe abundância ali. Há mais coisas estragadas do que funcionando no mundo. E os objetos estragados são simplesmente descartados, pronto. Há um museu de objetos que não funcionam, objetos que provavelmente vão prosseguir circulando meio mundo – exatamente pelo fato de não funcionar, não responder. Pode-se tudo com eles sem que haja uma cobrança a respeito. Experimente”, reflete Hermógenes.

“Percebo que no Museu do Objeto Encontrado as pessoas sentem-se menos inibidas porque as peças são oriundas de um contexto de precariedade. Elas não olham as peças como uma obra de arte que pode ter um problema e consequência caso algo aconteça. Elas olham como algo do qual podem se aproximar sem protocolos”, explica o artista.

Tudo pode ser interferido e pode mudar de lugar no Museu do Objeto Encontrado. Não existem regras ou funções. Uma taça não precisa ser necessariamente utilizada para beber vinho. Tudo é parte de um processo. Transformar-se. Fernando Hermógenes quer expor o processo, o pós-processo, a pós-relação e a pós-experiência.

“Se tivesse criado um ambiente com objetos mais sofisticados, teríamos outras relações. E este ambiente com objetos precários abre possibilidades para interação e entrega. Para a cumplicidade”, comenta.

Mudanças e processos

Fernando Hermógenes decidiu alterar seu projeto original da residência artística, que era produzir um livro a partir do Museu do Objeto Encontrado. “Quando montei o projeto, era uma coisa. No  Instituto Procomum/LABxS, aquele projeto passou por tantos atravessamentos que se tornou uma outra história. Escolho estar atento, aberto e disponível, e agradeço sempre por cada colaboradora que soma com o Museu, os auês, os encontros. Foram quase 90 pessoas ao longo do Auê Aberto, de cantos, fés e ideias variadas,num trabalho conjunto e uma convivência saborosa neste espaço tão pequeno. Um museu que lotava fácil”, explicou.

O espaço ficou conhecido pelos frequentadores do LABxS como “Museu do Hermógenes”. Mas é o museu de todo mundo. Quando dizem que é do Hermógenes é porque existe a possibilidade de interferir, tirar, alterar. Que tudo é tocável, ‘cheirável’, mexível, removível. Com outros ‘íveis’. Terrível também, defende Fernando Hermógenes.

Generosidade foi a palavra escolhida por Hermógenes para descrever seu processo. Aprendeu o que é generosidade, ceder. Como ela se dá e o que é ser generoso. Passa-se a uma postura mais aberta enquanto artista, pessoa, educador, profissional. E pra ele, esse processo e resultado é mais interessante do que um processo individual em nome de uma ideia artística. Por isso generosidade, por isso aprendizagem.

Fernando Hermógenes quer brincar com ideias impostas, com as coisas institucionalizadas. É potência, tentativa e cura.

Crie o seu próprio museu

Fernando Hermógenes também vai disponibilizar um tutorial do Museu do Objeto Encontrado. Quer mostrar que um museu não é o lugar onde você precisa entrar arrumado, andar de obra em obra, sair e entender que você não pode tê-las em sua casa.

“Eu acredito que os museus já existem. As curadorias já estão postas. Escolhas já estão feitas. Mas podemos também brincar do que é ter um museu, do que é seu. E de como isso é amor próprio”, comentou.

Na verdade, a ideia do tutorial é algo bem tosco. Não imagine que você vai criar um museu consagrado, como o Louvre, ou ganhar uma residência na Finlância. O tutorial é uma receita de gelatina e essa é a grande sacada do artista.

Fernando Hermógenes quer brincar com coisas impostas e institucionalizadas. Para além de uma brincadeira. É potência e cura.